
O Saab Gripen E/F
O desenvolvimento de uma versão melhorada do Saab JAS 39C Gripen foi iniciado pela Saab em meados dos anos 2000. Na época, o Gripen já era usado pela Força Aérea da Suécia, cujos primeiros exemplares da versão A foram entregues em 1996. Já os primeiros exemplares da versão B, de treinamento, foram adquiridos no segundo lote de Gripen encomendado à Saab, em 1992, e entraram em serviço em maio de 1998. A intenção de colocar o Gripen no mercado internacional fez com que a Saab introduzisse algumas modificações na aeronave, introduzindo em 1997 as versões C (monoplace) e D (biplace), com a capacidade de reabastecimento em voo (REVO) e compatibilidade com equipamentos utilizados pela OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte. Os JAS 39C/D foram adquiridos pela Suécia, num terceiro lote de Gripen (50 monoplaces e 14 biplaces), adquirido em 1997 e entregues entre 2002 e 2008. As versões C/D foram vendidas para a África do Sul e Tailândia, ao passo que a República Tcheca e a Hungria optaram por arrendar seus exemplares diretamente da Força Aérea Sueca. No total, a Saab produziu 238 Gripen nas versões A, B, C e D.
Em abril de 2008, a Saab apresentou o Gripen Demo (39-7), uma aeronave demonstradora, baseada no JAS 39D, incorporando uma série de modificações estruturais e de sistemas e equipamentos a bordo, que viria a se tornar o Gripen NG (New Generation). Uma característica que penalizava os Gripen das versões A e B era a sua pequena capacidade de combustível, ideal para emprego pela Suécia, mas que os comprometia em comparação com outras aeronaves de caça. Isso foi em parte remediado com a introdução do sistema REVO nas versões C e D, mas ainda assim, talvez insuficiente para oferta a países de dimensões continentais, como o Brasil.
No Gripen NG – que passou a ser designado oficialmente como Gripen E/F, a capacidade interna de combustível foi aumentada em 40% em relação ao Gripen C/D, através da modificação do trem de pouso principal, movido para as raízes das asas, recolhendo para dentro de baias situadas nas laterais da fuselagem. O espaço liberado na fuselagem com a relocação do trem de pouso foi ocupado por um tanque de combustível com capacidade de 1.200 litros. Outro resultado positivo dessa modificação na posição do trem de pouso foi a adição de duas estações para transporte de carga útil na parte inferior da fuselagem, aumentando para dez o número de estações (pilones) no total.

O motor foi substituído no Gripen E/F pelo GE F414G, equipado com pós-combustor, fabricado sob licença na Suécia pela Volvo Aero sob a designação RM16. O F414G – que foi posteriormente redesignado GE F414-GE-39E, é uma variante do motor F414-GE-400, modificada para emprego monomotor e apresenta uma série de características avançadas, como o uso de um sistema FADEC (Full-Authority Digital Engine Control) para controlar o emprego da turbina em todo o envelope de voo da aeronave, de novos materiais e técnicas de resfriamento de componentes da turbina e de manutenção da temperatura do combustível para aumentar o seu desempenho e estender o tempo de vida de seus componentes. O motor F414-GE-39E oferece 35% a mais de empuxo do que o F404 empregado nas versões A/B/C/D do Gripen, e permite que o Gripen E exiba a capacidade de voo em supercruzeiro, ou seja, voar a velocidade supersônica (Mach 1,1) sem o uso de pós-combustor, em configuração limpa (sem cargas externas).
Em termos de sistemas de bordo, o Gripen E traz o emprego de um sistema fly-by-wire triplo redundante, comandos de voo usando o conceito HOTAS (Hands-On-Throttle-And-Stick), visor do tipo HUD (Heads-Up-Display) acoplado ao visor embutido em capacete (Helmet-Mounted-Display). O radar é o Leonardo ES-05 Raven, do tipo AESA, operando de forma conjunta com o Leonardo Skyward-G, um sensor de busca e rastreamento ótico infravermelho (IRST – Infra Red Search and Track). Na cabine de pilotagem, originalmente foram instalados três painéis do tipo MFCD (Multi-Function Color Display), reconfiguráveis, apresentavam as informações de voo e de missão ao piloto.

Durante o desenvolvimento do Gripen E, a Saab não previa uma versão biplace. Essa versão foi um requisito feito pela FAB no âmbito do programa F-X2 e que acabou por se concretizar com a escolha do caça sueco. As versões de produção do Gripen NG foram designadas como JAS 39E (monoplace) e 39F (biplace).
Em 17 de janeiro de 2013, o governo sueco encomendou à Saab 60 exemplares do JAS 39E. Essa compra, autorizada em dezembro de 2012 pelo parlamento sueco, era condicionada à uma eventual redução em 20 exemplares, caso o Gripen NG não fosse adquirido por outros países no futuro. Outros 10 exemplares, da versão E, foram autorizados para compra pelo Ministério da Defesa sueco em abril de 2014.
O Gripen NG, ofertado ao Brasil no âmbito do programa F-X2, acabou por ser selecionado pelo governo brasileiro em 18 de dezembro de 2013. O contrato para aquisição de 36 aeronaves, sendo 28 delas monoplace e 8 biplaces, foi firmado entre o Brasil e a Suécia em 24 de outubro de 2014, com a previsão de entrega das aeronaves a partir de 2019, até 2024.
Em 18 de maio de 2016, foi feita a apresentação do protótipo do Gripen E (matrícula 39-8). Ali, ficou evidente que as modificações feitas em relação às gerações anteriores do Gripen o tornaram um caça verdadeiramente novo. Externamente, as principais diferenças são os canards de maiores dimensões, as extensões nas pontas das asas para abrigar equipamentos de guerra eletrônica, a fuselagem mais longa e mais larga, o trem de pouso reposicionado e o IRST à frente da cabine de pilotagem.
O primeiro voo do Gripen E foi realizado no dia 15 de junho de 2017. O atraso de quase um ano entre a apresentação e o primeiro voo deveu-se à decisão da Saab de certificar para padrões comerciais o projeto do sistema distribuído, modular e integrado de aviônicos (Distributed Integrated Modular Avionics, DIMA), instalados a bordo do Gripen E. Essa certificação foi validada pela autoridade militar aeronáutica sueca, Flygi, e não foi uma exigência das forças aéreas brasileira e sueca; ao contrário, a Saab tomou essa decisão para garantir que, desde o primeiro dia de uso, os aviônicos e o software a bordo estivessem certificados e representassem um produto estável. O DIMA “fala” com um aplicativo de celular, o que permite aos engenheiros de software da Saab desenvolver, testar e voar a aeronave com uma nova versão do software em questão de poucos dias, como já foi demonstrado pela Saab durante o desenvolvimento continuado do Gripen E.

O modelo adquirido pela FAB tem algumas diferenças em relação ao Gripen NG, sendo a mais importante a incorporação de um painel de instrumentos na cabine de pilotagem composto por uma única tela eletrônica, colorida, do tipo touchscreen (sensível ao toque), de formato panorâmico, denominada WAD (Wide Area Display), substituindo os três MFCD’s utilizados no Gripen Demo.

Desenvolvido e produzido localmente pela empresa AEL Sistemas, localizada em Porto Alegre – RS (subsidiária da empresa israelense Elbit Systems), o WAD exibe informações ao piloto tanto no formato de simbologia como em imagens de alta resolução. Sua operação é feita tanto por toque como por botões no manche/manete de potência (explorando o conceito HOTAS). O software de controle do WAD foi desenvolvido para ampliar a consciência situacional do piloto, por meio da fusão e seleção de dados, de forma contextualizada, obtidos através dos sensores (radar, IRST e sistemas de guerra eletrônica e de enlace de dados). Ele permite, ainda, visualizar a arena de combate, exibindo tanto alvos terrestres quanto aéreos. Com esses recursos, o piloto pode decidir de forma rápida e segura como agir frente a eventuais ameaças, tornando mais eficiente a operação da aeronave. Essas excepcionais características levaram a Força Aérea Sueca a decidir pelo uso do WAD nos seus JAS 39E em novembro de 2018, e demonstram e ratificam a qualidade de um produto brasileiro de alto valor agregado.
O Brasil é o launch customer da versão biplace, sendo o seu desenvolvimento dividido em partes iguais entre a Saab e o Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen (CPDG). Sediado nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto, o CPDG é o núcleo de desenvolvimento tecnológico do Gripen no Brasil. O Gripen F não será, no entanto, somente uma aeronave de treinamento: o WAD estará presente nas duas cabines de pilotagem, podendo o assento traseiro ser ocupado por um operador de sistemas de armas (Weapons System Operator – WSO) em missões de perfil mais complexo.
O Gripen foi designado como F-39 pela FAB e o seu primeiro exemplar, o F-39E FAB 4100, realizou seu primeiro voo em 26 de agosto de 2019, decolando do aeródromo da Saab em Linköping. No dia 10 de setembro, ele foi transferido formalmente à FAB, integrando-se ao programa de ensaios em voo. O primeiro piloto da FAB a voar no 4100 foi o Major-Aviador Cristiano de Oliveira Peres do Instituto de Pesquisas e Ensaio em Voo (IPEV) do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), que no dia 20 de agosto de 2020, decolou da planta de Linköping da Saab e realizou um voo solo de aproximadamente 50 minutos.

Eletrônica + Potência Computacional + Algoritmos = Consciência Situacional
O Gripen E apresenta uma característica fundamental na sua concepção, a da modularidade, principalmente no tocante ao software, que permite controlar e empregar a aeronave. Toda aeronave moderna de combate é “movida” por software. Sem ele, a aeronave não voa, não consegue empregar armamento, não se comunica com outras. É por isso que o software é tão importante numa aeronave de caça e ele deve poder ser mantido atualizado para fazer frente à evolução das ameaças. Manter um software atualizado e, principalmente, funcionando, custa mais de 80% do ciclo total de desenvolvimento do mesmo. Além disso, a sua atualização não pode interferir negativamente na aeronave. Em termos de engenharia de software, uma das técnicas usadas para reduzir a chance de ocorrer efeitos colaterais devido às modificações no software é o uso de módulos separados para realizar funções separadas, ao invés de um código “monolítico” que, se alterado, é mais suscetível a tais problemas.
No Gripen E/F, os softwares de missão e de controle de voo são separados, comunicando-se entre si por interfaces de software. Com isso, as modificações feitas num ou noutro restringem-se a eles somente, facilitando o isolamento de quaisquer erros e, principalmente, permitindo que cada usuário possa adaptá-lo para as suas necessidades específicas.
Outro recurso importantíssimo oferecido no Gripen E é a sua suíte de guerra eletrônica. Ele dispõe de um casulo de interferência para ataque eletrônico (EAJP – Electronic Attack Jammer Pod), o qual faz parte da família de sistemas de guerra eletrônica Arexis, produzida pela Saab. Oferecendo proteção num arco de 360°, o EAJP tem sensores de detecção de iluminação por radar (RWR), sensores de imageamento eletrônico para inteligência, vigilância e rastreamento (ISR), sistemas de contramedidas eletrônicas (CME) e de guerra eletrônica (GE).
A suíte Arexis é baseada em receptores digitais de ultralargura de banda e componentes de memória digital de radiofrequência (capazes de suportar ambientes complexos no espectro de sinais eletrônicos), transmissores eletrônicos do tipo AESA (utilizados para jameamento de radares de defesa aérea do tipo anti-aeronaves-furtivas, capazes de produzir alta potência de sinal com boa eficiência e redundância) e sistemas de detecção de direção interferométricos. Além do pod EAJP, a aeronave tem vários pontos de EMC/EW nativos, presentes nas pontas das asas, deriva, nariz e no radar AESA.
Além dessa moderna tecnologia em hardware, são empregados algoritmos de inteligência artificial e de aprendizagem pela máquina (machine–learning), capazes de interpretar as ameaças, selecionar as ações a serem tomadas para autoproteção da aeronave e fundir as informações obtidas para exibição ao piloto e/ou WSO no seu WAD.
Essas informações podem ainda ser compartilhadas entre outros Gripens ou aeronaves que utilizem o mesmo sistema de datalink, silenciosamente. Nos Gripen E suecos, são empregados três datalinks: o Enhanced Link 16 da OTAN, para comunicação entre aeronaves; e dois outros, proprietários, para comunicação com o radar de vigilância aerotransportado Saab Erieye (usado pela FAB nas aeronaves de alarme aéreo antecipado e controle E-99M) e com tropas em terra. No caso específico dos Gripen brasileiros, o datalink a ser utilizado é o Link BR2, desenvolvido no Brasil, com recursos como criptografia dos dados e transmissão/recepção com salto de frequência, o qual já foi implementado e testado, com sucesso, empregando aeronaves F-5EM.
Como resultado do uso integrado de todos esses sistemas, a consciência situacional na cabine torna-se muito elevada, de tal maneira que esse sistema eletrônico/computacional permite que o piloto/WSO receba sugestões de como reagir a ameaças, de forma rápida e segura.
Armamento
A versão monoplace dispõe de um canhão Mauser BK27, instalado no lado esquerdo da aeronave, com 120 munições. Além dele, o Gripen E/F pode empregar mísseis e bombas. A FAB selecionou como armamento para equipar os seus Gripens os mísseis ar-ar MBDA Meteor e Diehl BGT IRIS-T.
O Meteor é um míssil ar-ar de engajamento além do alcance visual (BVRAAM – Beyond-Visual-Range Air-Air-Missile). Dotado de um sistema de propulsão foguete de empuxo variável canalizado (TDR – Throttleable Ducted Rocket) baseado em um motor foguete acoplado a um motor ramjet, o Meteor não tem similar dentre os mísseis ar-ar BVR disponíveis no mercado ocidental. Apesar de o desempenho do míssil ser confidencial, os lançamentos realizados confirmam alcances superiores a 100 km e que velocidades sustentadas de aproximadamente 4,0 Mach foram mantidas durante os voos.

O IRIS-T é um míssil ar-ar para emprego a curta distância (WVRAAM – Within Visual Range Air-to-Air Missile), contra alvos altamente manobráveis. Como diz a sua sigla – Infra-Red Imaging System-Tail/Thrust Vector Controlled – o míssil emprega tecnologias de imageamento infravermelho e de propulsão de última geração, empregando motor foguete com vetoramento de empuxo. O alcance máximo reportado é de 25 km e a altitude máxima de operação é superior a 65 mil pés; a velocidade máxima alcançada pelo míssil é de Mach 3,0. Mais de quatro mil mísseis IRIS-T já foram fabricados e entregues.
O Gripen E 39-6002 da Força Aérea Sueca foi utilizado para os testes de integração do IRIS-T.
O Gripen E/F no mercado internacional
A Saab ofertou o Gripen E/F a diferentes países, tais como o Canadá, Dinamarca, Finlândia, Grécia, Noruega e República Tcheca, mas não conseguiu concretizar as ofertas. Todos esses países acabaram por optar pela compra do Lockheed Martin F-35A Lightning II.

Além desses países, a Saab ofereceu o Gripen E/F à Índia, Colômbia e Tailândia. Apesar de a oferta ao país do subcontinente asiático ainda estar em análise, em 2025 os dois outros países selecionaram o Gripen E/F para reequiparem suas forças aéreas. Tais aquisições, uma vez concretizadas, consolidarão a aeronave no mercado internacional, beneficiando também a indústria aeronáutica brasileira.










