Este artigo, de autoria de Rudnei Dias da Cunha, foi publicado originalmente sob o título “Os Esquadrões da Fita Azul”, em Revista Força Aérea, Ano 4 N.º 15, Jun-Jul-Ago 1999.
O 1º Esquadrão do 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira e os esquadrões n.º 2 e n.º 13 da Real Força Aérea Australiana compartilham uma honraria: são as únicas unidades estrangeiras agraciadas com a “U.S. Presidential Unit Citation” por suas ações na II Guerra Mundial.
Durante a II Guerra Mundial, muitos foram os atos de bravura realizados individualmente por militares e civis de todas as nacionalidades envolvidas naquele conflito. Mas poucas são aquelas unidades militares que se distinguem das demais pela continuada dedicação ao dever durante longos períodos de combate, sofrendo grande número de baixas e mesmo assim continuando a cumprir as missões a elas atribuídas.
Com a finalidade de reconhecer os feitos de unidades que assim tenham se distinguido nos campos de batalha, o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt criou a “Presidential Unit Citation” através da Ordem Executiva nº 9075 no dia 26 de fevereiro de 1942. No dia 2 de dezembro de 1943, a citação teve alterada a sua designação[1], chamando-se “Distinguished Unit Citation” até 10 de janeiro de 1957, quando passou a ser conhecida como a “Presidential Unit Citation (Army and Air Force)”[2].
A condecoração é conferida a unidades do Exército e Força Aérea norte-americanos e de nações aliadas, “por extraordinário heroísmo em ação contra um inimigo armado”, a partir de e inclusive 7 de dezembro de 1941 (o dia do ataque japonês a Pearl Harbor).
A unidade agraciada deve ter demonstrado bravura, determinação e espírito de corpo no cumprimento das missões a ela atribuída, tais que a distinguam das demais unidades envolvidas na mesma campanha. O grau de heroísmo necessário para a concessão da citação é equivalente ao requerido para a concessão da “Distinguished Service Cross” a um indivíduo[3].
A fita ou passador da citação para uso individual é em azul-escuro, medindo 1 3/8” de largura por 3/8” de altura, montada em uma armação dourada representando uma coroa de louros. Subseqüentes concessões da citação a uma mesma unidade são identificadas pelo uso de botões de folhas de carvalho em bronze sobrepostas ao passador; cinco concessões autorizam o uso de um botão em prata.
Também o estandarte da unidade é condecorado, recebendo uma flâmula em azul-escuro, com uma das extremidades terminando em duas pontas, contendo o nome da campanha ou data na qual a unidade distinguiu-se.
Uma característica da citação é que os militares norte-americanos pertencentes à unidade no período durante a qual ela distinguiu-se são autorizados a utilizar permanentemente o passador em seus uniformes. Os militares que venham a servir na unidade, posteriormente, podem utilizar o passador apenas durante o período em que se encontrem no efetivo da unidade.
A “Presidential Unit Citation” desperta um interesse especial em nós brasileiros, pois o 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira (FAB) é um dos três esquadrões não pertencentes às U.S. Army Air Forces que receberam tal honraria. Tradicionalmente, acreditava-se que apenas o esquadrão brasileiro e uma unidade da Royal Air Force britânica a haviam recebido (ver referência [4, pág. 442]); no entanto, pesquisas recentes por nós realizadas junto às agências históricas da USAF e RAF (U.S. Air Force Historical Research Agency e Air Historical Branch, MoD, respectivamente) indicam que nenhum esquadrão da RAF a recebeu. Os outros dois esquadrões distinguidos pela citação são os Esquadrões nº 2 e nº 13 da Royal Australian Air Force (RAAF) (referências [1] e [5]). A seguir apresentaremos um pouco da história de cada unidade.


1º Grupo de Aviação de Caça

O Brasil declarou guerra à Alemanha e Itália em 22 de agosto de 1942, após vários ataques de submarinos alemães e italianos a navios mercantes brasileiros, tanto em águas internacionais como ao longo da costa brasileira[4].
A participação brasileira na guerra não restringiria-se somente à patrulha marítima e apoio logístico aos Aliados; planos foram traçados na primeira metade de 1943 para o envio de tropas à Europa, a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Além das unidades do Exército Brasileiro que a compunham, também um componente aéreo fez parte da FEB: o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) e a 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (esta última, para controle de tiro da artilharia). Era previsto que a FEB operaria em conjunto com unidades do exército norte-americano.
Em 18 de dezembro de 1943, através do Decreto nº 6.123, foi criado o 1º GAvCa. Seu primeiro comandante foi o então Maj. Nero Moura, nomeado a 27 de dezembro do mesmo ano. Todo o efetivo de 350 homens do 1º GAvCa era composto por voluntários, incluindo 43 pilotos.
No dia 3 de janeiro de 1944, o comandante e mais 32 homens por ele selecionados partiram para a Escola de Tática Aérea, em Orlando, Flórida; o restante do pessoal seguiu por via aérea para Albrook Field, Panamá. Ao fim de fevereiro, todo o efetivo encontrava-se reunido na Base Aérea de Aguadulce, dando início à instrução aérea de combate, utilizando aeronaves Curtiss P-40C. Em 11 de maio, o 1º GAvCa passou a operar independente das unidades americanas na Zona do Canal, desempenhando missões de patrulha aérea na região.
Completado seu treinamento inicial – que incluía não só as missões de caça, mas também o funcionamento do escalão terrestre nos moldes do Exército americano – o esquadrão partiu a 22 de junho de 1944 com destino a Suffolk Field, Long Island, E.U.A. Lá, iniciou a conversão operacional para a aeronave que equiparia o grupo – o Republic P-47D Thunderbolt.
A 19 de setembro, o esquadrão embarcou com destino ao teatro de operações do Mediterrâneo, chegando em 6 de outubro a Livorno, Itália. No dia seguinte, o grupo chegou à sua primeira base, em Tarquínia.
Durante a travessia do Atlântico, o Cap. Fortunato Câmara de Oliveira desenhou o emblema do esquadrão: uma avestruz – lembrando a alimentação diferente a que haviam se submetido durante seu treinamento – com um quepe da FAB, tendo um escudo com o Cruzeiro do Sul para a sua proteção, e um revólver .45 disparando; o todo sobre uma nuvem com o céu vermelho, lembrando a guerra que logo enfrentariam. Como moto, escolheram “Senta a Pua!”, um expressão da gíria do Nordeste brasileiro.
Operacionalmente, o 1º GAvCa foi subordinado ao 350th Fighter Group, um dos grupos de caça da 62nd Fighter Wing, XXII Tactical Air Command (XXII TAC), 12th Air Force. O 350th FG – unidade que encontrava-se em combate no Mediterrâneo desde janeiro de 1943 – passou a ser composto então por quatro esquadrões: 345th “Devil Hawk” Fighter Squadron, 346th “Checker Board” FS, 347th “Screaming Red Ass” FS e o 1st Brazilian Fighter Squadron[5].
As primeiras missões foram realizadas em 31 de outubro de 1944, inicialmente como elementos de esquadrilhas dos demais esquadrões norte-americanos do 350th FG, para aclimatação à zona de combate. No dia 11 de novembro, o 1º GAvCa passou a montar suas próprias operações de combate, em missões de ataque ao solo, interdição e escolta a bombardeiros norte-americanos.
Em 21 de novembro, o esquadrão deslocou-se para a base aérea de San Giusto, próximo a Pisa, de onde realizou suas missões até 4 de maio de 1945, quando cessaram as hostilidades na Itália.
Não foi sem custo a sua participação na guerra. Dezesseis pilotos foram abatidos em missões de combate, cinco dos quais perderam a vida; cinco outros foram feitos prisioneiros de guerra, e dos restantes seis, três atravessaram as linhas alemãs e os outros três desceram em território aliado. Além disso, quatro pilotos pereceram em missões de treinamento; outros seis tiveram de ser retirados de ação por motivos de saúde. Como o esquadrão praticamente não recebia novos pilotos[6], a situação foi-se agravando: a partir de abril de 1945, o esquadrão dispunha de somente 22 pilotos – metade de seu efetivo original. Mesmo assim, não houve redução do número de missões montadas pelo esquadrão diariamente, alguns pilotos participando de duas ou mais missões por dia. Ao final da guerra, 28 pilotos brasileiros haviam completado mais de 35 missões, o que, para os norte-americanos, corresponderia ao término de um turno de operações e consequente repatriamento. O 2º-Ten.-Av. (RC) Alberto Martins Torres completou 99 missões, enquanto oito outros completaram mais de 90 missões.
O 1º GAvCa fez jus então à Presidential Unit Citation por suas ações durante a ofensiva da primavera no fronte italiano, iniciada a 9 de abril. No dia 15 de abril, oito pilotos brasileiros destruíram, com bombas incendiárias de gasolina gelatinosa, foguetes e metralhamento, posições alemãs no monte Solo, as quais impediam o avanço de unidades americanas e sul-africanas. O oficial comandante do II Corpo de Exército aliado elogiou por escrito o 350th FG por essa ação do 1º GAvCa. No dia 19, uma seção do esquadrão brasileiro localizou tanques aliados atravessando o rio Pó, transmitindo imediatamente a informação ao QG aliado, aonde ainda se desconhecia o limite do avanço aliado. Com isso, impediu-se que aqueles tanques fossem atacados pela aviação aliada, bem como permitiu que o QG aliado explorasse a brecha nas linhas alemãs.
Finalmente, a 22 de abril – dia que passaria a ser comemorado como o Dia da Aviação de Caça pela FAB – o 1º GAvCa participou intensamente das missões de interdição, a fim de permitir a travessia do Pó pelas forças aliadas, marcada para o dia seguinte. Às 10h00min, uma esquadrilha levantou vôo para uma missão de reconhecimento armado ao sul de Mântua, destruindo mais de 80 caminhões e veículos. Outros aviões do esquadrão atacaram posições fortificadas alemãs, tanques e balsas. Ao final do dia, o esquadrão havia voado 44 missões individuais, tendo destruído mais de 100 veículos e outros alvos. Dois pilotos tiveram seus P-47D avariados pela “Flak”; um terceiro foi abatido e capturado pelos alemães. Esse foi o dia no qual foram despachadas mais missões de combate pelo 1º GAvCa.
O 1º GAvCa voou um total de 445 missões, 2.550 missões individuais e 5.465 horas de vôo em combate, de 11 de novembro de 1944 a 4 de maio de 1945. O XXII TAC reconheceu a eficiência exibida pelo grupo, atestando que, de 6 a 29 de abril de 1945, o 1º GAvCa voou apenas 5% do total de missões efetuadas por todos os grupos sob seu controle, porém, destruiu: 85% dos depósitos de munições, 36% dos depósitos de combustível, 28% das pontes (19% danificadas), 15% dos veículos motorizados (13% danificados) e 10% dos veículos hipomóveis (10% danificados).
Ao final da guerra, em reconhecimento à exitosa campanha do 1º GAvCa, o comandante do 350th FG, Col. Ariel W. Nielsen, recomendou o grupo brasileiro para a concessão da Distinguished Unit Citation ao comandante do XXII Tactical Air Command, no dia 17 de maio de 1945. O Col. Nielsen entregou no mesmo dia uma cópia da recomendação ao Ten.-Cel.-Av. Nero Moura, e esse documento passou a fazer parte dos arquivos do grupo.
Porém, enviada aos E.U.A., a recomendação acabou extraviando-se no Pentágono. Por muito tempo, ficou no esquecimento, até que em 1985, o Maj. (Res.) John Buyers, antigo oficial de ligação norte-americano junto ao 1º GAvCa durante a campanha da Itália, procurou o Maj.-Brig.-do-Ar (RR) Rui Moreira Lima, solicitando que lhe fosse enviada uma cópia da recomendação, pois dentro em breve o 1º GAvCa deveria receber a citação.
Qual não foi a surpresa do Maj.-Brig. Moreira Lima ao ser informado pelo então comandante do grupo, Ten.-Cel.-Av. Silvio Potengy, que ela não se encontrava nos arquivos do 1º GAvCa. Após alguns dias, foi localizada e entregue ao Maj.-Brig. Moreira Lima, o qual entregou uma cópia ao Maj. Buyers. Daí em diante, o processo andou rapidamente, tendo também participado na empreitada os seguintes oficiais da U.S. Air Force: Capt. (Res.) Paul Buyers, Col. Howard K. Lynch, Col. Ray Martin Cole Jr. e Lt.-Col. Wayne K. Penley.
Assim, a 22 de maio de 1986, nas comemorações do Dia da Aviação de Caça na Base Aérea de Santa Cruz, Rio de Janeiro, e na presença do Sr. Presidente da República Federativa do Brasil, José Sarney, o 1º Grupo de Aviação de Caça recebeu das mãos do Secretário da USAF, Edward Aldridge Jr., a Presidential Unit Citation, cujo texto é o seguinte:
“O Primeiro Esquadrão de Caça do Brasil, Forças Armadas do Brasil, distinguiu-se por seu extraordinário heroísmo em operações militares contra urn inimigo dos Estados Unidos no Teatro de Operações do Mediterrâneo, em 22 de abril de 1945. Ao prestar heróicos serviços com suprema bravura e ao demonstrar consumada aptidão no reconhecimento armado e ataques em caças-bombardeiros, bem como ao mostrar excelente coordenacão tática com o Quinto Exército, a Unidade contribuiu diretamente para que os Aliados cruzassem o rio Pó. A Unidade destruiu grande quantidade de material e veículos do inimigo, assim evitando que este se refugiasse no esquema de segurança preparado em sua defesa de retaguarda. Ao descobrir, nas imediações de Mântua, Itália, um centro motorizado inimigo habilmente camuflado e fortemente defendido, a Unidade destruiu pelo menos 45 veículos e seguramente imobilizou muitos outros. Ao hostilizar pontões do inimigo no rio Pó a Unidade ajudou a impedir sua retirada, frustrando quaisquer meios de evasão de muitos elementos germânicos. Por sua vigilante cobertura aérea de redes viárias e posições preparadas para batalha, a Unidade destruiu numerosos outros veículos, inclusive peças de campo blindadas, e hostilizou posições de trincheira. Embora as baixas sofridas hajam reduzido sua disponibilidade de pilotos a cerca de metade da dos esquadrões da Força Aérea dos Estados Unidos em operação na mesma área, a unidade realizou idêntico número de sortidas, com desempenho incansável e superior ao normalmente esperado no cumprimento do dever. A manutenção de suas aeronaves foi altamente eficiente. Sérias dificuldades meteorológicas foram enfrentadas com excelente planejamento e navegação. Com insuperável capacidade no manejo de câmeras, a Unidade fotografou os resultados dos ataques e contribuiu para o registro fotográfico de uma memorável campanha. De 44 sortidas, 11 missões aéreas destruiram nove transportes motorizados e danificaram outros 17. Ademais, a Unidade destruiu as instalações de um grupo de transporte motorizado, imobilizou 35 veículos de tração animal, danificou uma ponte rodoviária e um cruzamento de pontões, destruiu 14 prédios ocupados pelo inimigo e danificou outros três, atacou quatro posições militares e infligiu muitos outros danos. O profissionalismo, a dedicação ao dever e o extraordinário heroísmo demonstrados pelos integrantes do 1º Esquadrão de Caça do Brasil confirmam as mais finas tradições do serrviço militar e refletem a mais alta reputação que conquistaram tanto para si como para as Forças Armadas do Brasil.” [4]
Hoje em dia, o 1º Esquadrão do 1º GAvCa é uma das unidades de caça da FAB, operando caças Northrop F-5E Tiger II, mantendo as tradições forjadas a ferro, fogo e sangue sobre os céus da Itália.
No. 2 Squadron, Royal Australian Air Force
O Esquadrão n.º 2 da RAAF é uma unidade com longa tradição, tendo iniciado suas atividades em Setembro de 1916, no Egito. Fazia parte então do Australian Flying Corps, e seguiu para a Grã-Bretanha logo após sua formação, lá chegando a 30 de janeiro de 1917.
Conhecido como No. 68 Sqn, Royal Flying Corps (RFC), o esquadrão foi deslocado para o condado de Lincolnshire, para um período de treinamento de pilotos e mecânicos junto ao RFC. Equipado com aeronaves de Havilland DH.5, o esquadrão deslocou-se em vôo para St. Omer, França, em 21 de setembro de 1917. No dia seguinte, instalou-se no aeródromo de Baizieux e foi colocado sob controle operacional da 13th (Army) Wing RFC, operando em conjunto com o III Exército Britânico.
No dia 2 de outubro, o esquadrão tornou-se a primeira unidade australiana a entrar em combate aéreo sobre a França, quando uma patrulha de quatro aeronaves perseguiram um avião alemão. Em fins de 1917, o esquadrão foi reequipado com o caça SE-5a.
Até os primeiros meses de 1918, o esquadrão esteve envolvido em missões de suporte ao exército. Durante a batalha de Cambrai, o esquadrão teve atuação destacada e foi citado pelo comandante do RFC.
A partir de abril, o esquadrão deslocou-se para o aeródromo de Bellevue, de onde realizou inúmeras missões bem sucedidas, abatendo vários aviões germânicos. A partir de agosto de 1918, os aliados alcançaram supremacia aérea sobre o setor norte do “front”, permitindo que as missões de bombardeio e metralhamento fossem realizadas quase sem oposição; os aeródromos alemães situados na região de Lille foram atacados continuamente, com grande número de aeronaves sendo destruídas no solo. Com a diminuição do número de caças alemães em ação, o esquadrão passou a desempenhar missões de ataque ao solo durante outubro de 1918.
Após a assinatura do armistício a 11 de novembro, o esquadrão permaneceu na região de Lille até ser desmobilizado; ao final de fevereiro de 1919, o esquadrão havia entregue suas aeronaves aos depósitos da Royal Air Force (RAF)[7]. Em junho, o esquadrão chegou à Austrália e foi desativado ao final do mês.
Apesar da RAAF ter sido criada em 1921, dificuldades orçamentárias levaram a atrasos na formação de seus esquadrões. Em 10 de janeiro de 1922, o núcleo do esquadrão foi ativado em Point Cook, New South Wales, composto por apenas dois oficiais e quatro praças. Porém, essa reativação foi efêmera, pois em julho do mesmo ano o esquadrão foi novamente desativado.
Com a situação internacional deteriorando-se ao final dos anos 30, particularmente na Ásia, com o avanço japonês na China, a RAAF expandiu seu efetivo. Em 3 de maio de 1937, o esquadrão foi reativado em Laverton como uma unidade de reconhecimento geral, equipado com dois biplanos Hawker Demon. Ao final do ano, o esquadrão recebeu aeronaves Avro Anson e, no início de 1938, o esquadrão foi a primeira unidade da RAAF a receber o caça leve CAC Wirraway (versão do treinador North-American NA-72).
Em setembro de 1939 o esquadrão completou sua mobilização, com um efetivo de 11 oficiais, 130 praças e 10 aeronaves Anson. As primeiras missões de guerra realizadas pelo esquadrão foram patrulhas marítimas à caça dos navios incursores de superfície alemães.
O mês de junho de 1940 viu o esquadrão ser reequipado com o Lockheed Hudson, uma aeronave bastante superior ao Anson, mas ainda inadequada às missões de patrulha, com pouco armamento defensivo. Foi com essa aeronave que o esquadrão deslocou-se para Darwin a 5 de dezembro de 1941, em preparação para um eventual ataque japonês. Em 10 de dezembro, parte do esquadrão deslocou-se para Penfoei, Timor, Índias Orientais Holandesas (I.O.H.), de onde passou a realizar missões de patrulha. De 9 a 12 de dezembro, o esquadrão realizou missões de patrulha anti-submarina e proteção aérea em apoio ao deslocamento da Força Imperial Australiana para a região.
Em janeiro de 1942, os japoneses desembarcaram nas ilhas Celebes e, com isso, o esquadrão aumentou a sua atividade; operando em conjunto com o Esquadrão nº 13 RAAF, fez repetidos ataques aos comboios japoneses.
Em 26 de janeiro, a base de Koepang foi bombardeada pelos japoneses, destruindo vários bombardeiros no chão, dada a inexistência de um sistema de alerta antecipado de ataques aéreos. Com o avanço japonês por terra, as aeronaves tiveram de ser evacuadas para Darwin em 18 de fevereiro. A situação era tal, no entanto, que parte do pessoal de terra do esquadrão não pôde ser evacuada – todos se voluntariaram para ficar, e seis oficiais e 23 praças foram escolhidos para ficarem para trás e, após destruírem as instalações para evitar que caíssem em mãos japonesas, aguardarem seu resgate.
No dia 19 de fevereiro, Darwin sofreu o primeiro de uma série de ataques japoneses, com grande destruição; nesse dia, o esquadrão encontrava-se em deslocamento para a base de Daly Waters, a sudeste de Darwin. Os ataques a Darwin foram tão intensos que impediram o envio de quaisquer aeronaves para buscar o pessoal do esquadrão ainda em Timor. À essa altura, tentavam atravessar a ilha até o lado sul, através da selva, que cobrou seu preço: com pouca ou nenhuma comida, nem remédios, a malária, a disenteria, e as cobras mataram seis homens, e outros dezessete ficaram debilitados. A 18 de abril, os 27 sobreviventes, além de dois outros membros do esquadrão que haviam sido abatidos em 12 de abril e haviam se juntado ao grupo, bem como quatro soldados do exército australiano, foram retirados por um submarino norte-americano.
A partir de março, juntamente com o Esquadrão n.º 13, também sediado em Daly Waters, foram efetuadas missões de reconhecimento e ataque às instalações japonesas situadas em Timor e ilhas próximas – particularmente a base aérea em Penfoei e o porto de Koepang.
Em maio, o esquadrão iniciou uma série de ataques ao porto de Ambon e às posições japonesas em Dili e Koepang; além dessas missões, o esquadrão ainda montava patrulhas anti-submarinas, de reconhecimento e de reabastecimento às tropas “Commando” australianas (conhecida como “Sparrow Force” ), as quais permaneceram em Timor para operações de guerrilha, após a retirada das demais tropas da Força Imperial Australiana.
De junho a outubro, o esquadrão continuou mantendo a pressão sobre os japoneses, agora na defensiva, após a derrota em Midway. Apesar das missões terem sido razoavelmente bem-sucedidas, o esquadrão sofreu pesadas baixas, perdendo 13 tripulações durante 1942.
A partir de agosto de 1943, o esquadrão iniciou missões de escolta a comboios aliados nos mares a noroeste da Austrália. Somente em janeiro de 1944 o esquadrão iniciou seu reequipamento, recebendo aeronaves Bristol Beaufort, as quais foram operadas juntamente com o Hudson até abril. No mês seguinte, o esquadrão foi retirado da frente de combate, para ser reequipado com o North American B-25 Mitchell.
A primeira missão com os Mitchell foi realizada a 27 de junho, contra posições inimigas em Timor. Nos meses seguintes, o esquadrão participou de missões de bloqueio aos japoneses no mar de Arafura, operando em conjunto com outras unidades da RAAF. No entanto, como o esquadrão não dispunha de suficientes tripulações treinadas no Mitchell, foi forçado a reduzir a sua participação nas operações de combate a fim de treinar as suas tripulações.
Em dezembro o esquadrão retomou suas atividades, destruindo ou danificando mais de 1.000 toneladas em pequenos navios e balsas, com as quais os japoneses procuravam reabastecer as suas tropas, já agora praticamente isoladas pelo avanço aliado em direção ao Japão. No início de 1945, operando juntamente com o Esquadrão nº 18, o esquadrão praticamente eliminou a presença de navios japoneses na região.
O mês de março de 1945 viu o esquadrão movimentar-se em direção à Baía de Jacquinot, com vistas a operar a partir de Bornéu. Ironicamente, o esquadrão só veio a instalar-se em Balikpapan, situada naquela ilha, a 23 de agosto, quando a guerra já havia terminado; mesmo assim, muitas missões foram realizadas, para localizar campos de prisioneiros de guerra e lançar suprimentos sobre os mesmos.
Em outubro o esquadrão assumiu uma nova tarefa, passando a ser uma unidade de transporte; porém, já em novembro ele cessou as operações e em 20 de dezembro iniciou seu retorno à Austrália. Ao chegar à ilha-continente, foi sediado em Laverton (Western Australia), perdendo grande parte de seu efetivo de tempo de guerra, até ser desativado em em 15 de maio de 1946.
No pós-guerra, o esquadrão foi reativado em Amberley a 23 de fevereiro de 1948 e redesignado Esquadrão nº2 (Bombardeiro), equipado com o Avro Lincoln Mk. 30. Em dezembro de 1953, entrou na era do jato, quando foi reequipado com o BAC Canberra. Em 1º de julho de 1958 o esquadrão foi transferido para Butterworth, Malásia, como parte da Reserva Estratégica da Comunidade Britânica no Extremo Oriente.
O esquadrão tomou parte na guerra do Vietnã, deslocando-se em abril de 1967 para Phan Rang, aonde operou como parte da USAF 35th Tactical Fighter Wing. Até o seu retorno à Austrália, em 4 de junho de 1971, o esquadrão alcançou uma taxa de disponibilidade de 97% e voou apenas de 4% a 6% das missões a cargo da 35th TFW, alcançando, no entanto, 16% do total de alvos destruídos. Inicialmente voando em missões de bombardeio a grande altitude, guiadas por radar, passou a operar em missões de bombardeio visual a baixa altitude, alcançando grande precisão em seus ataques.
Em 9 de junho de 1971, já baseado em Amberley, o esquadrão teve sua missão alterada para o reconhecimento fotográfico, responsável pelo mapeamento aéreo de Papua Nova Guiné, ilhas da Indonésia e de vastas regiões da Austrália. Sua última missão foi realizada a 26 de julho de 1982, encontrando-se atualmente existente em nome apenas, sem efetivo e equipamento alocados.
O Esquadrão n.º 2 RAAF e a “Presidential Unit Citation”
Em 1942, o esquadrão foi recomendado pelo Gen. Douglas MacArthur para a concessão da Presidential Unit Citation, cujo texto é o seguinte:
“O Esquadrão n.º 2, Real Força Aérea Australiana, é citado pela excelente execução das missões a ele atribuídas, de 18 de april de 1942 a 25 de agosto de 1942. Operando de bases no noroeste da Austrália, esse esquadrão, equipado com aeronaves altamente vulneráveis à ação de caças inimigos, realizou repetidos ataques à navegação inimiga, aeródromos, tropas e instalações em e próximo a Timor, Amboina e outras ilhas do Mar de Banda, causando pesados danos ao material inimigo e inúmeras baixas. O esquadrão manteve com sucesso o reconhecimento a longa distância de forma contínua sobre as águas a noroeste da Austrália. A coragem de seus membros em combate e a alta moral dessa Unidade em perigosas situações de combate, contribuiu grandemente para o sucesso das operações na área.” [5]
No entanto, o esquadrão não recebeu a citação durante a guerra. A citação foi concedida pelo Pres. Roosevelt e publicada em ordem do Departamento de Guerra norte-americano em 4 de janeiro de 1943, o que causou mal-estar na Austrália, pois essa condecoração, recebida simultaneamente pelos esquadrões nº 2 e nº 13, é singular: unidades das forças britânicas ou australianas não recebiam tais condecorações.
Assim, o sr. A. S. Drakeford, Secretário do Departamento de Defesa australiano, escreveu ao Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa australiano, sr. John Curtin, solicitando que o Secretário de Estado britânico para Assuntos Coloniais fosse consultado. Drakeford considerava que a flâmula a ser afixada aos estandartes dos dois esquadrões era aceitável – em se considerando que as forças britânicas e australianas tem um equivalente na forma das chamadas “battle honours”, fitas bordadas aos estandartes de unidades contendo o nome e data de uma batalha aonde tenham se distinguido – mas que a utilização de passadores da citação nos uniformes de membros das unidades não era aconselhável.
Naturalmente, essa opinião era compartilhada pelos britânicos, cuja resposta lembrava que, até então, não se aceitava a concessão de tais condecorações a unidades britânicas, dada a inexistência de equivalente britânica que pudesse ser concedida a unidades aliadas. Além disso, era considerado indesejável que unidades como um todo utilizassem condecorações concedidas por uma nação aliada. Terminava a resposta esperando que “o governo de Sua Majestade na Comunidade da Austrália concordaria que a mesma prática fosse seguida no tocante às unidades australianas.”
De qualquer forma, houve um ato do Rei Jorge VI, de 20 de abril de 1943, que aceitava relutantemente a concessão da citação; porém, ele foi convenientemente esquecido, até que um antigo comandante do esquadrão nº 2, Group Captain Garrisson, visitou sua antiga unidade em 1959 (então baseada em Butterworth) e iniciou as tratativas para obter uma cópia do texto da citação e permissão para que os membros do esquadrão utilizaram o passador da condecoração.
Passaram-se quase dez anos até que, a 11 de julho de 1969, na base de Phan Rang, Vietnã, o Esquadrão n.º 2 recebeu a Presidential Unit Citation das mãos do Gen. George Brown, comandante da 7th Air Force USAF. Dois veteranos do esquadrão durante o período referido na citação participaram da cerimônia.

No. 13 Squadron, Royal Australian Air Force
O Esquadrão n.º 13 da RAAF foi criado em Darwin a 1 de junho de 1940, como uma unidade de reconhecimento geral, com as esquadrilhas “A” e “B” do Esquadrão nº 12. Sua primeira aeronave foi o Avro Anson, com os quais o esquadrão realizou as primeiras missões de patrulha marítima, patrulha de proteção e busca marítima. Ao final de junho, os Anson foram substituídos pelo Lockheed Hudson.
Em 6 de dezembro de 1941, com a iminência de uma guerra com o Japão, as esquadrilhas “A” e “C”, cada uma com três aeronaves Hudson, foram deslocadas para Laha, I.O.H. Quando a guerra foi declarada, seis outros Hudson encontravam-se em Darwin, prontos para serem deslocados para Namlea, I.O.H.
Com a detecção de navios de desembarque japoneses aproximando-se na direção geral de Tarakan-Balikpapan-Manado, o esquadrão foi acionado para atacá-los, mas retornaram sem terem feito contato com o inimigo. Na madrugada de 6 de janeiro de 1942, o aeródromo de Laha foi bombardeado por vários aviões japoneses, resultando em danos às instalações holandesas e da população nativa. O ataque demonstrou que não havia condições para alarme antecipado a um ataque japonês e, com isso, os australianos passaram a deslocar-se para as montanhas próximas ao aeródromo durante a noite. No entanto, como não havia redes anti-mosquito, a incidência de malária aumentou entre os efetivos do esquadrão.
Em 10 de janeiro de 1942 um Hudson atacou um hidroavião japonês sobre Laha, danificando a aeronave inimiga, porém sem conseguir derrubá-la. No dia seguinte, 27 bombardeiros largaram 300 bombas sobre Laha; os caças de escolta Mitsubishi A6M Zero metralharam o aeródromo após o bombardeio, o ataque causando grandes danos ao aeródromo.
Laha sofreu ataques continuados durante todo o mês de janeiro, o que levou à sua evacuação para Darwin, completada a 31 de janeiro. No dia 8 de fevereiro, as esquadrilhas “A” e “C” foram deslocadas para o aeródromo de Daly Waters, permanecendo a esquadrilha “B” em Darwin. Durante os ataques de 18 de fevereiro àquela cidade, todo o esquadrão encontrava-se em vôo, auxiliando na evacuação de Timor.
O esquadrão sofreu grandes perdas nesse período, tendo apenas alguns Hudson disponíveis para as missões diárias. Mesmo assim, ataques continuaram sendo feitos às posições japonêsas nas ilhas ao norte e noroeste da Austrália, muitas vezes enviando uma aeronave apenas para atacar alvos fortemente protegidos.
Assim foi a rotina diária do esquadrão, mantendo a pressão sobre as tropas japonesas diariamente, e foi com isso reconhecido pelo Gen. MacArthur com a concessão da Presidential Unit Citation, cujo texto da citação é idêntico àquela concedida ao Esquadrão nº 2. Também o comandante da RAAF na região reconheceu os feitos do Esquadrão nº 13, nos seguintes termos:
“Tomo a iniciativa de congratular o Esquadão nº 13 pela excelente maneira com a qual suas missões foram realizadas na região de Timor no período compreendido entre 10 de agosto a 18 de setembro de 1942. A iniciativa e coragem demonstradas durante as inúmeras missões de reconhecimento, bem como os raides sobre navios e instalações inimigos foram muito gratificantes. Refiro-me particularmente aos ataques realizados por nove Hudsons a tropas, prédios e transportes motorizados em Mape, Timor, no dia 14 de agosto de 1942. Todas as bombas foram largadas sobre a área do alvo, várias delas atingindo diretamente os alvos. As bem-sucedidas missões de reconhecimento realizadas sobre Beco, Viqiveque, Neva Anadia e Cabo Beco mostraram-se da maior importância. Essas operações contribuíram enormemente para o sucesso das Forças Aliadas durante o período e o seu Esquadrão deve com justiça sentir-se orgulhoso por sua participação.” [5]
Em 19 de setembro de 1943, foi transferido para Canberra, aonde foi declarado não-operacional, a fim de ser reequipado com as aeronaves Bristol Beaufort e Lockheed PV-1 Ventura. Em fins de 1943 as equipagens de Beaufort foram divididas entre os esquadrões nº 2 e nº 32, deixando o esquadrão equipado apenas com o Ventura.
Uma nova transferência viu o esquadrão sediado em Cooktown (Queensland) a 9 de junho de 1944 e, em 25 de agosto de 1944, foi movimentado novamente, para Gove (Território do Norte). A partir dessa base, o esquadrão desempenhou missões de patrulha marítima e escolta a comboios.
Em 26 de junho de 1945 o esquadrão estava operando de Morotai, Nova Guiné, aonde permaneceu até o fim da guerra. Foi novamente transferido para Labuan, Bornéo, aonde desempenhou missões de lançamento de panfletos a partir de 16 de agosto, para avisar do desfecho da guerra às tropas japonesas que encontravam-se no local. A 11 de janeiro de 1946 o esquadrão foi desativado.
Em 1989, o esquadrão foi reativado como unidade da reserva, tomando o título de No. 13 “City of Darwin” Squadron.
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Assim foram os feitos dessas unidades, oriundas de países que tem o Cruzeiro do Sul como símbolo na sua bandeira, cujos membros – pilotos e equipagens de terra – enfrentaram toda sorte de perigos – a artilharia antiáerea alemã nos céus da Itália, os maus tratos pelos captores nazi-fascistas, a malária nas selvas, a morte quase certa nas mãos dos japoneses caso fossem capturados, os caças japoneses – e mesmo assim não esmoreceram no cumprimento das suas missões. Possam seus feitos de coragem e dedicação a um ideal servirem de exemplo para essa e futuras gerações.
O autor deseja expressar seus agradecimentos às pessoas e instituições que colaboraram para a produção deste artigo: David Wilson, RAAF Historical Section; Central Photographic Establishment, RAAF Williams; Clive Richards, Air Historical Branch, Ministry of Defence (UK); David A. Byrd, TSgt. USAF, U.S. Air Force Historical Research Agency.
O escudo do Esquadrão n.º 2 da RAAF é “Crown Copyright” e sua reprodução nesse artigo foi autorizada pelo Sub-Chefe da RAAF.
(*) Publicado originalmente em Revista Força Aérea, Ano 4 N.º 15, Jun-Jul-Ago 1999.
Bibliografia:
- Bennett, “Highest Traditions – The History of No. 2 Squadron, RAAF”. AGPS, Canberra, 1995.
- Hagedorn, “Republic P-47 Thunderbolt – The Final Chapter – Latin American Air Forces Service”. Phalanx Pub. Co., St. Paul, 1991.
- Lorch, “A Caça Brasileira – Nascida em Combate”. Action Editora, Rio de Janeiro,1993.
- Moreira Lima, “Senta a Pua!”. INCAER, Rio de Janeiro, 1989.
- RAAF Historical Section, “Bomber Units”. In: “Units of the Royal Australian Air Force – a concise history”. AGPS, Canberra, 1995.
[1] Ordem Executiva n.º 9396.
[2]Ordem Executiva n.º 10694.
[3]Criada em janeiro de 1918 para distinguir soldados do Exército norte-americano que tenham demonstrado excepcional heroísmo contra um inimigo armado, a “Distinguished Service Cross” é suplantada apenas pela Medalha de Honra do Congresso.
[4]Mais de 1000 tripulantes e passageiros brasileiros perderam suas vidas durante a guerra devido à guerra submarina.
[5]Apesar da sua denominação na FAB, o 1º Gp Av Ca equivalia a um esquadrão nas U.S. Army Air Forces.
[6]Apenas dois pilotos foram recebidos, em abril de 1945.
[7]A RAF foi formada a 1º de abril de 1918, com a fusão do Royal Flying Corps e do Royal Naval Air Service.